quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Geração Tropa de Elite






Nós, enquanto sociedade, criamos um enorme equívoco - e especialmente enquanto jovens. Em um movimento progressivo, surgido de alguns anos para cá, começamos a habilitar pequenos focos de percepção que colocam a violência, a intolerância e a militarização (não no sentido das Forças Armadas, mas na autorização plena do uso da força enquanto recurso plenipotente) no centro das decisões sobre as controvérsias políticas. Ou seja, nós nos vestimos de Capitão Nascimento nas gírias, nos jargões, nas brincadeiras, na banalização da violência policial, na insegurança e descrédito quanto ao Estado de Direito enquanto começo e fim da nossa agenda política.

Em muitos momentos, sugerimos bombas atômicas no Congresso. Sugerimos caçada impiedosa e sanitária contra criminosos em cobertura televisiva geral. Como nos 2 minutos de ódio orwellianos, nos intoxicamos no almoço, no café das 17h e na Janta com o uso indiscriminado da formação de opinião pública radicalizada, que contorna e ignora toda a base do nosso regime de jurisprudência - e ignora todo o direito de defesa dos acusados.

Os estudantes da USP passarão ao futuro como crackudos, marginais, infelizes, doentes, playboys, baderneiros. #occupywallstreet passará a história assim também, bem como Oakland, como a Cinelândia? É difícil dizer, mas o que é fato é que a nossa lição para o futuro, a nossa pedagogia para essa geração de estudantes, de telespectadores, de amigos, de filhos, é que a forma violenta, raivosa, intolerante, foi a qual o Estado - e de nós, como sociedade - optou para resgatar cidadãos que praticam atos ilícitos. Essa foi a nossa escolha que vai marcar a vida destes economistas, professores, médicos, pedagogos, advogados, e tantos outros que ainda vão passar pela universidade e pelas favelas um dia.

Os traficantes atiraram na imprensa na comunidade de Antares em novembro de 2011. Em dezembro de 2010, nós julgamos eles em tempo-real. A ação peremptória e preemptiva da sociedade civil, em aplausos desnecessários sobre um triste momento da nossa história, faz com que se desmonte toda e qualquer narrativa que coloca o Estado (e as suas instituições policiais) como as culpadas pela violência.

Os responsáveis pela violência somos nós, cada um de nós, que aplaude a caçada à todo o tipo de marginal da nossa sociedade.

A história aqui contada tinha tudo para ser episódica, anedótica e explicar melhor o que aconteceu na USP, como seria muito mais atraente - e talvez ajudasse a explicar melhor o contexto dessa semana na maior e excelente Universidade brasileira. Mas, infelizmente, a questão é antecedente ao direito do uso da maconha, ao planejamento de segurança social e ao poder de ação da Polícia Militar. A questão grave, verdadeiramente sensível, está no cerne da opinião pública brasileira.

A sociedade brasileira, nos ecos das diversas vozes da opinião pública, está escolhendo a violência como o caminho. O tratamento de estudantes, favelados, mendigos, usuários de droga e outros às margens da sociedade é uma opção que retrocede todo o projeto de Brasil cidadão que nos tirou de mais de 20 anos de regime de exceção. O projeto de Brasil cidadão, pouco a pouco, se torna uma página de meio-de-caminho nos livros de História.

Nos tornamos, na segunda década do século XXI tão esperado, a Geração Capitão Nascimento.