Veja e saiba aqui o Tempo Presente, antes. Por Daniel Chaves, historiador. Contato: daniel@tempopresente.org

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Comemorando os 30 anos do movimento Solidarnosc, na Polônia...

DE GOMULKA A WALESA, A TERCEIRA REPÚBLICA DA POLÔNIA

“É impossível falar-se do agente social como se estivéssemos lidando com uma entidade unificada e homogênea. Ao invés, devemos abordar o agente social como uma pluralidade, dependente das várias posições de sujeito, através das quais o indivíduo é constituído, no âmbito de várias formações discursivas. Isto nos fornece uma chave teórica para entendermos a peculiaridade dos novos movimentos sociais: a característica central deles, por razões que discutiremos adiante, é que um conjunto de posições de sujeito a nível de local de residência, aparatos institucionais, várias formas de subordinação cultural, racial e sexual, tornaram-se pontos de conflito e mobilização política. A proliferação destas novas formas de luta resulta da crescente autonomização das esferas sociais nas sociedades contemporâneas, autonomização essa sobre a qual somente se pode obter uma noção teórica de todas as suas implicações, se partirmos da noção do sujeito como um agente descentralizado, destotalizado.”
Ernesto Laclau


ANTECEDENTES: após morte de Stalin, 1953, o degelo de Kruschov reabilitou diversos presos políticos, entre eles Wlasdyslaw Gomulka, em prisão domiciliar. Gomulka se revelaria meio-termo entre as duas tendências – nacionais/conservadores e liberais/reformistas – e tornar-se-ia secretário geral do PZPR em 1956. No mesmo ano, os trabalhadores de Poznam, ignorados pelo governo, avançaram nas ruas e gritaram “Pão e Liberdade”. Polícia Política reage com violência e massacre, mas FFAA não avançaram contra a população. FFAA reage também contra iniciativa de Kruschov de mobilizar forças por ar, terra e água contra intervenção, prometendo resistência. Milícias populares se propõem a defender o país também, mas curiosamente, os maiores aliados históricos da federação sindical Solidariedade foram as FFAA’s, ainda que qualquer radicalidade fosse duramente repreensível. Medo de insucesso no clima pós-Conferência de Bandung não fez com que URSS avançasse. Caminho da negociação tem sucesso, com Polônia mantendo-se no Pacto de Varsóvia e URSS concedendo autonomia.

ORIGEM: 1980, movimentos grevistas não-violentos insatisfeitos com aumentos massivos nos preços dos alimentos e contra a ordem instituída da cortina de ferro se levantam contra o PZPR de Edward Gierek. Operários do estaleiro Lenin, liderados pelo técnico-eletricista Walesa. O Solidariedade é o primeiro sindicato independente na Cortina de Ferro, tentando realizar um dos idéias da Primavera de Praga e da Revolução Hungara, que era um sistema político plural. Surge em 1/7/80, preço de mercado sobre bens de consumo, promovendo greve pedindo redução de preços de alimentos e reajuste salarial. Cessão de Gierek (secretário geral do PZPR, Partido dos Trabalhadores Poloneses Unidos) junto aos grevistas, que avançam.

PROCESSO: em 17/8, foram lançados os 21 postulados do Solidariedade, e no dia 24/8 tanto Gierek quanto Babiuch, primeiro-ministro, seriam destituídos do PZPR. Solidariedade desejava sindicatos livres e independentes; direito reconhecido de fazer greve; garantia de melhores condições de salário; definição legal do que era material censurável; liberdade para presos políticos; autonomia administrativa para empresas; direito de participação de lucro; liberdade de imprensa para Igreja e Sindicatos; autonomia dos juízes e cortes de justiça junto ao PZPR. No fim dos anos 80, Solidariedade era um movimento nacional pró-democracia, mais liberal junto ao socialismo real e de ascendência católica.

Institucionalização do Solidariedade consolida a idéia de sindicatos livres na Polônia. Em Novembro de 80l, mais de 9,5 milhões de trabalhadores já haviam sido filiados, com uma Pop. Econ. Ativa de 18 milhões. Com o avanço da frente rural do Solidariedade, o serviço de segurança polonês começa a retaliar o movimento e o PZPR insere Wojciech Jaruzelski (outrora ministro-da-defesa) como primeiro-ministro. A resposta do Solidariedade é uma greve geral, para avançar em mais uma tensão.

Jaruzelski representa a linha-dura contra o Solidariedade, sem margem de negociação, mesmo com os apelos da Igreja Católica – inclusive do Papa polonês João Paulo II. Walesa assume mais uma vez um papel ativo, sugerindo que não se avançasse com força contra o regime devido a possibilidade de invasão soviética. No fim de 81, a situação se endurece e a lei marcial é decretada, com a formação do Conselho Militar de Salvação Pública. Mais de 5 mil delegados do Solidariedade foram presos e a ação (constitucional, mas ilegítima) do Solidariedade foi colocada na ilegalidade.

Violência do Conselho Militar de Salvação Pública aumentou a pressão sob o regime, que jogou o Solidariedade nessa ilegalidade. Rádio e imprensa clandestinas foram fundamentais na erosão do regime. Com a morte de Brejnev, em 82, Walesa era liberto, e a lei marcial era suspensa no início de 83, sem que isso significasse retorno do Solidariedade a legalidade. A crise de transição do socialismo real na URSS levou ao colapso do sistema produtivo polonês, ampliando o descontentamento e empurrando Jaruzelski para a liberalização da economia.

Com a transição que levou Gorbatchev ao poder, ampliando ainda mais a plurivocalidade no seio do Pacto de Varsóvia, agora mais tolerante com relação a possível insurreição popular (diferentemente de Kruschov, por exemplo), o que levou Jaruzelski a liberalizar ainda mais o regime na política também. Com a anistia geral de 1986, as lideranças do Solidariedade são libertas e Walesa organiza o Conselho Temporário da União Sindical Solidariedade, que mesmo sem a legalidade, tinha a tolerância do governo.

A legalidade do Solidariedade significaria uma bandeira histórica da fronteira mais longínqua de uma dolorosa liberalização política. As idas-e-vindas do processo de liberalização, com anistias seguidas de códigos penais mais flexíveis perante a medidas arbitrárias, eram uma constante no processo político e na manutenção de um bureau político autoritário que cuidavam da “segurança nacional”.

Em 87/88, acelera-se o processo com um referendo sobre preços, com vitória popular esmagadora contra o aumento, e novamente uma lei marcial é aprovada para instituir a repressão em 88. Novas greves acontecem, pedindo a suspensão dos aumentos mantidos por Jaruzelski e restabelecimento do Solidariedade. O resultado das negociações culminou na reeleição de Jaruzelski, mas pela primeira vez, não era sob tutela soviética e não era predominantemente comunista.

O processo pré-eleitoral de revelariam, ao se lançar no jogo democrático, uma série de correntes no Solidariedade que, agora lutando pelo poder, não era mais tão centralista. O carisma de Walesa e a sede de reformas estruturais na economia levou a Polônia a uma liberalização acelerada após o fim da URSS, com a dissolução do PZPR. Walesa era eleito em 1990.

A instabilidade do novo regime polonês levaria rapidamente a um cenário de ingovernabilidade, onde Walesa enfretaria severas greves e crises produtivas graves. Os anos de governo de Walesa (1991-1995) deixaram um legado de radical liberalização econômica e política, com pluralidade e reinserção do país na Europa contemporânea, mas também restaram as marcas da recessão, como quem destruiria um sistema repressivo mas não conseguira se consolidar no topo de uma nova forma política. No final do século, a representatividade do Solidariedade era menor que o próprio índice de desempregados do país, assinalando o fim da transição total ao liberalismo, que culminaria na própria incorporação da Polônia a OTAN, rival do Pacto de Varsóvia, e a sua incorporação ao sistema capitalista e da União Européia. Superado o medo da transição rumo a um sistema multi-partidário após décadas de monopartidarismo centralista, a Polônia hoje é um país integrado ao ocidente.

domingo, 29 de agosto de 2010

Ultradireita americana?


É exatamente esse o termo utilizado em praticamente toda a mídia internacional: ultradireita dos EUA. As notícias de que em pleno aniversário de 47 do discurso "eu tenho um sonho", de Martin Luther King Jr. - indiscutivelmente uma data comemorativa do movimento progressista negro norte-americano -, no mesmo lugar do discurso tenham se reunido milhares de conservadores para pedir menos Estado e mais religião no governo dos EUA é um claro recado para Barack Obama, cuja popularidade cai cada vez mais.

Cai também qualquer prerrogativa de laicismo dentro do republicanismo conservador dos EUA. A notícia de que o líder do encontro ("Tea Party") Glenn Beck diz salvar os EUA com um 'plano divino' é no mínimo uma pedra no sapato do progressismo estadunidense que via em Barack Obama uma alternativa após 8 anos de fundamentalismo cristão conservador de Bush II. Beck, mais um dos diversos 'casos perdidos' de usuário de drogas que se converte ao cristianismo right-wing americano, foi eleito pela Time um dos maiores formadores de opinião do mundo, graças a sua atuação na cadeia de rádio matinal e a Fox News, a mais voraz opositora a Obama na mídia dos EUA.

A esses conservadores, irrita demora na recuperação econômica dos EUA após intervenções anticíclicas no sistema de saúde e habitação, bem como a retirada de parte da carga militar sobre o Oriente Médio. A celebração de uma nova Tea Party, protesto anticolonial do século XVIII contra a tributação da metrópole inglesa, é um protesto político de massas contra essa intervenção estatal.



terça-feira, 24 de agosto de 2010

Curso no SINPRO: As Africas

Todos estão convidadíssimos. Um abraço grande!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Redes sociais


Voltando ao ritmo de postagens, retomo o assunto da ainda impressionista conceituação em 'clouding' da internet. O Cloud computing, que é uma nova dinâmica de processamento e armazenamento da informação, é parte da larga tendência do usuário não utilizar mais espacialidades rígidas para a sua relação com essa informação, que ao fim das contas, é o espírito da coisa toda da informática - a informação automatizada.

Mas não é só de automação que a informática vive. Desde jornais online, passando por chats de conversação, por sistemas de transação financeira, até rádios, sistemas televisivos e as redes de sociabilidade, a rede é cada vez mais o ambiente onde o usuário se acomoda em tempo total.

A rede social 'pioneira' em grande escala de usos foi o Orkut, fundada pelo Google e projetada pelo turco Orkut Büyükkokten. Sua inovação era integrar diversas ferramentas, com uma interatividade bastante grande para a etapa do desenvolvimento das redes sociais até então. Os usuários, representados por avatares (não confundir com os bichões azuis do James Cameron), interagiriam diretamente entre si, com as 'comunidades' impulsionando novos relacionamentos e os diversos assuntos em tendência.

Mas outro fenômeno, bem mais leve e objetivo, o Twitter, veio há pouco para abraçar os usuários cansados da superexposição da multidão informativa do Orkut. Podendo 'postar' até 144 caracteres - sim, trata-se de um microblogging - o Twitter permite a comunicação em massa com acesso praticamente livre e imediato a qualquer usuário, sem relacionamento interpessoal: não há comunidade, não há interatividade nos avatares. A informação é linear, dura e pública, o consumo e a produção são massivos. Na avalanche do Twitter, o usuário se despe da pessoalidade e mergulha na multidão informacional.

A última fronteira produzida e revelada na rede, atualmente, é o Facebook. Em junho de 2010, o site já era o mais visitado da rede, com mais de 500 milhões de acessos. Misturando o microblogging do Twitter com a sábia moderação de misturar youtube, links externos e automatismo na gestão do capital social, o Facebook dá sempre ao seu usuário a impressão de 'adivinhar' o que ele pensa: quando se posta o link, ele gera a janela; quando se ingressa na rede, anexa-se a conta de e-mail e os contatos são tragados pra dentro do ambiente social. Diversas facilidades automatizam a rede, e talvez essa sugestividade seja o grande diferencial do Facebook.

O caminho, cada vez mais, é o da automação.




segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O Globo (RJ): Aposta brasileira no Peru

02/08/2010 09:59
O Globo (RJ): Aposta brasileira no Peru
Projetos de Vale, Votorantim e Eletrobras triplicam investimentos de empresas nacionais no país

Danielle Nogueira e Ramona Ordoñez

A estabilidade político-econômica e a possibilidade de se ter uma saída para o Pacífico estão atraindo cada vez mais empresas brasileiras para o Peru. A última tacada foi da Votorantim Metais, que no fim de junho fez uma oferta avaliada em US$ 419,5 milhões por uma fatia na mineradora Milpo. Na próxima quintafeira, a Vale inaugura a mina de fosfato Bayóvar, no departamento de Piura, sua primeira operação no país e que demandou investimentos de US$ 566 milhões. E a Eletrobras estuda participar de sete hidrelétricas por lá, orçadas em cerca de US$ 12 bilhões.

As três iniciativas vão quase triplicar, para US$ 20 bilhões, os investimentos de multinacionais verde-amarelas no país desde 2003, início do governo Lula.

Segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-Peru, as empresas brasileiras injetaram US$ 7 bilhões em território peruano de lá para cá, considerando operações de fusão e aquisição.

A criação do conselho empresarial, em dezembro de 2009, e cuja presidência no lado brasileiro está a cargo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), é por si só um sinal do maior apetite dos empresários brasileiros pelo Peru. Entre as companhias que já fincaram raízes por lá estão a siderúrgica Gerdau, a Petrobras, a Ambev e a própria Votorantim.

O principal atrativo do Peru é sua economia. Entre 2002 e 2008, seu Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos) cresceu a taxa média de 7%. Em 2009, quando muitas nações latino-americanas apresentaram retração por causa da crise econômica global, o país avançou 0,9%.

A projeção da Comissão Econômica para América Latina (Cepal) para 2010 é de expansão de 6,7%, o que coloca o Peru entre os cinco países com maior crescimento este ano na região. Os demais são Brasil (7,6%), Uruguai (7%), Paraguai (7%) e Argentina (6,8%).

Acesso mais fácil a mercado chinês

Além disso, frisa o diretor de Relações Internacionais da Fiesp, Thomaz Zanotto, a inflação é baixa, as exportações robustas garantem saldo comercial positivo e há respeito à legislação.

Não à toa, o país recebeu o grau de investimento, chancela de investimento seguro concedida por agências de classificação de risco, em 2 de abril 2008, antes mesmo do Brasil.

O Peru é um país que está dando certo na América do Sul. Há estabilidade econômica e institucional, o que cria um ambiente favorável aos negócios diz Zanotto.

A indústria de mineração é um exemplo dessa estabilidade de regras, na avaliação do pesquisador do Departamento de Relações Internacionais do Ipea Pedro Silva Barros. Ele lembra que no governo de Alberto Fujimori (1990-2000) foi aprovada uma legislação para o setor com forte estímulo fiscal: as empresas só pagariam os impostos diretos devidos após a maturação do investimento, ou seja, quando o dinheiro desembolsado fosse recuperado.

Desde então, essa estrutura tributária foi mantida e ampliada, apesar de seus sucessores, Alejandro Toledo (2001-2006) e o atual presidente Alan García, no poder desde 2006, serem de correntes políticas opostas.

A legislação favorável às mineradoras é um chamariz para as empresas, além das grandes reservas minerais, ainda pouco exploradas.

Foi nesse contexto que a Votorantim Metais iniciou suas operações no Peru, em 2004, com a aquisição da refinaria de zinco Zinc Cajamarquilla. No ano seguinte, comprou uma fatia da mineradora Milpo, ampliada para 34,93% em 2008. Agora, tenta assumir seu controle. A Vale, por sua vez, venceu a licitação da mina de Bayóvar em 2005. A capacidade de produção é de 3,9 milhões de toneladas por ano de rocha fosfática, que será usada na produção de fertilizantes. O objetivo é atender, prioritariamente, o Brasil, que hoje importa metade do fosfato consumido.

Não estão descartadas, porém, exportações para outros países.

A perspectiva de usar os portos peruanos para alcançar o mercado asiático, especialmente a China, também é um dos fatores que vêm estimulando investimentos brasileiros no Peru. Além disso, o país tem acordo de livre comércio com o Nafta, bloco que reúne EUA, Canadá e México.

O eixo do Pacífico deve ser o de maior crescimento no século XXI. A questão logística é fundamental para entender esse movimento de empresas brasileiras para o Peru diz o historiador Daniel Chaves, do Laboratório Tempo Presente da UFRJ.

É com o Peru que o processo de integração regional na área de infraestrutura está mais adiantado. A construtora Odebrecht encabeça dois projetos.

Com 704 quilômetros, a rodovia Interoceânica Sul vai ligar a cidade de Iñapari, na fronteira com o Acre, aos portos de Ilo e Matarani, na costa peruana. A conclusão da obra é prevista para dezembro de 2010. A empreiteira também lidera as obras da IIRSA Norte, que ligará os dois países por meio de rodovia e hidrovia. No total, a empresa tem sete projetos em execução que somam US$ 2,2 bilhões.

Estatais apostam em integração regional

A Eletrobras também está apostando no projeto de integração regional.

Estuda construir sete hidrelétricas no Peru, totalizando US$ 12 bilhões. A que está em estágio mais avançado é a usina de Iñambari, de 2.200 megawatts (MW), ou 30% da capacidade instalada do Peru. Os investimentos são estimados em US$ 2,5 bilhões, dos quais US$ 1,5 bilhão será da Eletrobras. Além dela, participam do consórcio Furnas e a construtora OAS. O estudo de viabilidade da hidrelétrica será concluído no próximo ano. A Petrobras também quer desenvolver um polo petroquímico no Peru, em parceria com a Braskem. A previsão de investimento é de cerca de US$ 2 bilhões.

A viabilidade do projeto, no entanto, depende de a Petrobras comprovar no país a existência de reservas significativas de gás natural, que será a matéria-prima do polo. A estatal atua no Peru há 14 anos, onde produz 15,2 mil barris diários de petróleo e gás.





terça-feira, 27 de julho de 2010

Chávez estava no seu direito ao romper com Bogotá, diz analista

Chávez estava no seu direito ao romper com Bogotá, diz analista
25 de julho de 2010 • 15h51 • atualizado em 26 de julho de 2010 às 10h46



O presidente venezuelano, Hugo Chávez, estava no seu direito ao romper relações com a Colômbia, na última quinta-feira. Esta é a opinião de Daniel Santiago Chaves, pesquisador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente da UFRJ, para quem as acusações de Álvaro Uribe, governante da Colômbia, foram graves. "É bastante dura e acusatória a declaração de Uribe, e se é fidedigno o que Chávez diz sobre não abrigar guerrilheiros por vontade própria, é seu direito defender-se", disse Chaves.

O governo da Venezuela rompeu relações diplomáticas com a Colômbia depois que o país vizinho reiterou diante da Organização dos Estados Americanos (OEA) suas acusações sobre a presença de líderes guerrilheiros colombianos em território venezuelano. A crise que culminou com o rompimento iniciou dias antes, em 15 de julho, quando Uribe, a semanas do fim de seu mandato, informou ter evidências, fotos e vídeos, da presença de líderes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do Exército de Libertação Nacional (ELN) no território venezuelano e as divulgou à imprensa.

No dia seguinte, o governo venezuelano alegou que Uribe tentava destruir as relações bilaterais, em um esforço que "empreendeu com doentia obsessão nos últimos anos". No mesmo dia, Caracas convocou seu embaixador em Bogotá, Gustavo Márquez, como resposta às "agressões" colombianas. Horas depois, a Colômbia pediu a sessão extraordinária da OEA para discutir as suas provas, alegando que já havia feito inúmeros esforços fracassados para a solução do problema por meio do diálogo direto com a Venezuela e com o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza.

Antes de romper com o país vizinho, Chávez garantiu que as acusações de Uribe eram infundadas. "Nós não escondemos ninguém e se algum colombiano irregular entrar ilegalmente na Venezuela, o fará sem consentimento oficial", disse. Além disso, afirmou que a relação entre o atual e o futuro governante da Colômbia não vai nada bem. "Uribe está brigado com Santos, essa é a verdade", declarou, explicando que por isso Uribe estaria "sabotando" seu ex-ministro.

Futuro Colômbia X Venezuela O pesquisador da UFRJ acredita que a as acusações colombianas representam um aviso à Venezuela de que a troca de governo não significará que a relação entre os dois países vai mudar. "Parece que o presidente Uribe está avisando à Venezuela que, mesmo com a mudança de governo, mantém-se a mesma postura com relação aos problemas políticos e que todo e qualquer movimento de guerrilha será combatido mesmo através de fronteiras", disse Chaves.

Juan Manuel Santos, ex-ministro da Defesa do governo Uribe, que toma posse no próximo dia 7 de agosto, foi o mentor de uma das ações colombianas que mais dificultaram a relação entre os dois países. Na época, uma operação das forças colombianas matou Raul Reyes, nº 2 das Farc, em território equatoriano. Porém agora, prestes a assumir a presidência, Santos preferiu não se pronunciar sobre o novo atrito. Para Chaves, a decisão pode ser uma maneira de tentar evitar o desgaste. "O que se pretende é deixar o ônus e deixar a conta para Uribe, um governante que já está de saída", disse.

Apesar de ressaltar que o sucessor de Uribe não é nenhum santo, Chávez já destacou que ele expressou disposição de normalizar as relações, "congeladas" desde meados do ano passado por uma denúncia colombiana similar. "A Colômbia é uma nação irmã, só que chegou uma burguesia que nos odeia", ressaltou Chávez e sustentou que, inicialmente, pensou em ir a Bogotá para "estender a mão" a Santos e "dar um sinal" rumo à normalização das relações. Porém, após os incidentes recentes, mudou de ideia e não irá à posse do novo presidente.

Em julho do ano passado, A Venezuela "congelou" todas as relações diplomáticas e comerciais com a Colômbia, em protesto contra um acordo militar entre Bogotá e Washington que permite aos Estados Unidos utilizar bases militares colombianas. Chávez criticou o acordo como uma ameaça à sua soberania, alegando que os EUA se preparavam para invadir o país. A decisão foi motivada ainda por declarações de Uribe de que várias armas que a Suécia vendeu à Venezuela apareceram nas mãos das Farc.

Brasil O Brasil, que já tentou a diplomacia em outras situações semelhantes, não deve mudar de postura desta vez. Para o pesquisador da UFRJ, o País deve insistir em que a discussão se restrinja a fóruns regionais, em vez de partir para uma briga localizada. "Ninguém quer ver uma guerra nas nossas fronteiras. A iniciativa de trazer a contenda para a Unasul, fórum multilateral regional, é a forma mais prática de discutir o conflito entre os atores políticos sul-americanos, onde o debate realmente deve se dar", afirmou.


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Cuba em debate

Um passo além
Anúncio de libertação de presos políticos aumenta expectativa sobre uma possível abertura política de Cuba
Publicado em 18/07/2010 | OSNY TAVARES

O inesperado anúncio da libertação de 52 presos políticos cuba nos fez renascer expectativas de que o regime político em vigor desde a Revolução Cubana de 1959 esteja esfarelando, e que a abertura política e comercial é logo ali. Além de surpreender o mundo, o gesto do regime de Raúl Castro livrou da morte o dissidente Guillermo Fariñas, em greve de fome havia 135 dias.

Se concretizada por completa, a soltura negociada com o governo da Espanha e a Igreja Católica soma-se à uma série de medidas internas que beliscam o regime comunista instituído desde a Revolução Cubana em 1959.

“A mensagem que o governo cubano tenta passar ao mundo é que a distensão de seu regime é um caminho necessário para a sua sobrevivência, ainda que se tenha criado uma situação de tamanha pressão que qual quer passo de descompressão do regime seja perigosa para a própria permanência das atuais lideranças – o que parece ser um dos objetivos do governo”, analisa Daniel Chaves, pesquisador do Laboratório de Estudos do Tem po Presente da Univer sida de Federal do Rio de Janeiro.

Para Tilden Santiago, ex-embaixador do Brasil em Cuba (2003-2006), a libertação dos prisioneiros amplia a expectativa quanto ao futuro político da ilha. “É um sinal muito positivo feito pelo regime cubano”, define. “Esse gesto amplia a esperança de que Cuba possa rumar para um regime político mais aberto ao mundo. Acredito que Cuba inaugura a etapa mais importante de sua história desde a re volução de 1959”, afirma.

Desde que Raúl Castro assumiu o poder em Cuba, em 2008, realizou uma série de mudanças

Iniciativas do governo cubano

- Destituição de ocupantes em postos-chaves do regime cubano, como Carlos Lage (secretário do Conselho de Estado), Felipe Pérez Roque (ministro de Relações Exteriores), Otto Rivero (vice-presidente), Jorge Luis Sierra Cruz (vice-presidente e ministro de Transporte) e Luis Manuel Ávila González (ministro do Açúcar).

- Doação de terras estatais a agricultores privados, que podem produzir visando lucratividade. A medida tenta reverter o crescimento de importações de produtos alimentícios.

- Empresas de telecomunicações norte-americanas foram autorizadas a oferecer serviços de telefonia fixa e celular, além de transmitir tevê via satélite e internet para os habitantes de Cuba.

- Libertação de dissidentes presos. Iniciativa do governo norte-americano

- Suspensão de todas as restrições de visitas de cubanos-americanos à Cuba e liberação ao envio de dinheiro para familiares que moram na ilha.
Fonte: Redação

Outra novidade desta semana foi uma aparição na tevê estatal do ex-líder Fidel Castro, discutindo questões de política internacional. Fidel passou o poder para o irmão em fevereiro de 2008, quando precisou se submeter a uma cirurgia de emergência. Desde então, pouco apareceu em público.

“Seguramente, Fidel não quer a abertura e aparece para marcar posição”, especula o professor cubano Eusebio Mujal-León, do Departamento de Governo da Universidade Georgetown, em Nova York, mesmo que Fidel não tenha discutido a política interna em sua participação no programa estatal “Mesa Redonda”, em que foi o único convidado.

Limitação

Antonio Jorge, professor de Economia Política da Universidade Internacional da Flórida, rechaça também que as libertações em curso sejam novidade. Lista, por exemplo, as liberações de presos políticos ocorridas nos anos 1960, quando foram soltos prisioneiros da fracassada invasão da Baía dos Porcos, e de 1998-99, na época da visita do então papa João Paulo II à ilha. “Quando é conveniente por razões políticas, Cuba está disposta a negociar essas libertações”, diz Jorge. “Do ponto de vista humano, comemoramos, mas o peso político é pequeno”, afirma. “É algo importante para a imagem de Cuba.”

Jorge aponta duas outras intenções do regime com as libertações. Uma é conceder um argumento à Espanha, para o país buscar uma revisão na política da União Europeia para a ilha. Além disso, Havana deseja que o governo dos Estados Unidos libere as viagens à Cuba para todos os americanos, o que resultaria em um impulso para a combalida economia local.

Mesmo que a libertação dos prisioneiros seja um gesto inédito na história recente do país, as dúvidas sobre o futuro do regime cubano ainda permanecem. Embora não tenham gerado mu danças profundas no contexto político-econômico do país caribenho, as pequenas reformas de Raúl apontam certa pré-disposição em relaxar a economia comunista, mas também pode ser lido como uma cortina de fumaça em tempos de incerteza em torno da sucessão dos irmãos Castro.

“É difícil todo e qualquer diagnóstico sobre a dinâmica interna do regime, pe la sua própria característica fechada, quase como uma caixa-preta. Mas, particularmente, não acredito em revisão de conceitos. A situação em Cuba está muito aquém de qualquer prerrogativa de progresso e mudança política”, avalia Chaves.

Direitos Humanos

Os presos libertados foram detidos durante a Primavera Negra de Cuba, um levante governista contra dissidentes ocorrido em 2003 e condenado por organizações internacionais. As acusações de violação aos direitos hu manos foram amplificadas pelas greves de fome feitas pelo prisioneiro Orlando Zapata Tamayo e, depois, pelo também dissidente Guillermo Fariñas. Tamayo, in tegrante de movimentos de oposição em Cuba, foi preso durante a Primavera Negra e condenado a 36 anos de prisão.

Em dezembro do ano passado, o dissidente iniciou a greve de fome exigindo poder usar roupas de cor branca (símbolo do movimento oposicionista) ao invés do uniforme da prisão. Também denunciava as condições do presídio, exigindo que os presos tivessem melhores condições no cárcere. Tamayo morreu após 85 dias de jejum, mas seu ato de desespero sensibilizou a opinião pública.

O clamor foi ecoado por uma outra greve de fome, iniciada um dia após a morte de Tamayo. O psicólogo e jornalista Guil lermo Fariñas, no entanto, condicionou o término de sua greve de fome à libertação de 26 presos políticos doentes. A longa agonia de Fariñas, que manteve a greve por 135 dias e esteve perto de morrer, pressionou o governo de Raúl Castro a encontrar uma saída para retirar os holofotes de cima de si. “Depois da morte de Tamayo e do início da greve de fome de Fariñas, houve grande pressão da Euro pa, dos Estados Unidos e de ou tros países”, relata Santiago. “A Igreja Católica, que sempre foi oposição ao regime cubano, teve importância fundamental no processo. O cardeal [Jaime] Or tega, líder das negociações, é muito pragmático e hábil na relação com os irmãos Castro”, ressalta.

EUA

Toda discussão sobre uma abertura comercial em Cuba passa pelo levante do bloqueio imposto pelos Estados Unidos à ilha em 1961. No ano passado, quando acabou a proibição de viagens e envio de dinheiro à ilha por cubanos-americanos, o go verno de Obama parecia estar flertando com a possibilidade de levante do embargo. Mas, des de então, gesto algum de aproximação foi feito por ne nhum dos dois países.

“A relação entre Cuba e Es tados Unidos vem se mantendo a mesma ao longo das décadas, não importa quem seja o presidente americano”, percebe Vir gílio Arraes, especialista em política externa dos Estados Uni dos e professor de História Con temporânea da Univer sidade de Brasília.

“Estamos diante de um im passe. Cuba não vai tomar a iniciativa, porque o regime justifica uma boa parte de seus problemas ao afirmar que tudo é resultado do embargo americano”, explica.

sábado, 10 de julho de 2010

Narcosubmersíveis

O NARCOTRÁFICO E SEUS SUBMARINOS: UM NOVO ELEMENTO NA LOGÍSTICA DO CRIME NA AMERICA DO SUL?



Na América do Sul Contemporânea, o problema do tráfico de drogas ganhou uma nova dimensão na medida em que o seu alcance se tornou maior, os insumos se tornaram mais sofisticados e, objetivamente concernente a esta análise, a sua logística ganha novas técnicas. O conjunto destes fatores está diretamente determinado nas rotas dos chamados ‘narco-submersíveis’, pequenos submarinos do crime transfronteiriço, questão que apresentaremos aqui.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Cine TEMPO...


"O Curioso Caso de Benjamin Button" (The Curious Case of Benjamin Button), 2008, EUA, 166 min. Direção: David Fincher. Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall e Cean Chaffin. Roteiro: Eric Roth



'O Curioso Caso de Benjamin Button', original de artigo de 1922 escrito por Scott Fitzgerald, é uma história fascinante que a todos preocupa: o envelhecimento. O que é isso que a todos nós atinge? Como ele se dará em mim? Verei os entes queridos falecendo? As dúvidas tocam profundamente a própria percepção do leitor ou do espectador sobre a sua própria existência, e um possível fim dela.

O homônimo artigo de Fitzgerald não fala de envelhecimento à toa; trata-se de um retrato sobre uma sociedade envelhecida pelos excessos e descuidos da segunda metade do século XIX, da Belle Epoque e da crença liberal na prosperidade indefectível e inalcançável do ocidente moderno. No conto original, é nessa metade que nasce o envelhecido Benjamin, um monstro estranho no pós-parto, que aos poucos se redescobre e vê que a vida é um processo, não uma rota rumo ao fim do túnel onde a prosperidade e a paz vos aguarda.

Às vésperas da crise de 1929, quando a economia americana foi nocauteada por uma crise de superprodução, o conto, curto, está circunscrito na geração do "Jazz Age", do pós 1a Guerra, da depressão e do medo pelo fim de um longo período (dentro da percepção de tempo do ocidente, claro) de apogeu civilizacional. No filme, Benjamin nasce envelhecido em 1918, no mesmo período histórico que o conto é escrito. Correndo mundo, Guerras, mulheres, vida, o personagem tem uma passagem apoteótica e repleta de aceitação na medida em que se torna mais velho, mas mais jovem. O mote central desse filme-texto, na atualidade do século XXI, é o mesmo medo de uma sociedade que acelerou seu tempo e na entrada de um novo milênio, teve medo do cansaço. O mesmo cansaço que atinge as demografias do ocidente, em sociedade cada vez mais envelhecidas, tanto quanto industrializadas, inférteis e saturadas. A percepção do envelhecimento, por sua vez assustador, faz com que se tornem paradoxalmente vazias e lotadas.

Nas duas tramas correlatas, Benjamin morre aos 70 anos, descoberto pela vida, sabido que não há idade ou etapa para a felicidade e que o tempo, em verdade, é feito pelos homens que nele vivem. Não pelo corpo ou pelas benesses materiais, todos construtos humanos, frágeis como toda a matéria que perece.




quarta-feira, 30 de junho de 2010

Espionagem na rede



Ainda que nessa semana tenha sido deflagrada um 'grampo' telefônico envolvendo o presidente do Equador, Rafael Correa, por parte do serviço de inteligência colombiano, o DAS, outra polêmica mostrou que o mundo dos espiões é mais amplo do que se imagina hoje em dia. O século XXI, no qual as táticas, estratégias e operações de guerra se dão no terreno cada vez mais pulverizado e indistinto dos meios, instrumentos e ações não-guerreiras, transforma cidadãos em depoentes, nerds em hackers, jovens em recrutas. Tudo isso sem sair de casa, sem custo de formação e sem vínculos facilmente detectáveis.

Nos EUA, um grupo de russos -incluindo a belíssima Anna Chapman- foi detido sob o argumento de que integravam uma rede de espionagem digital, que se inseria nas redes sociais (como o Linkedin, o Facebook, o Twitter e tantas outras) para enviar informações classificadas para a sua pátria, além de participar de redes de lavagem de dinheiro e tráfico de influência. Negando prontamente, os acusados podem ser pivô de uma crise diplomática envolvendo dois países que rivalizaram - ou melhor, polarizaram - o mundo na segunda metade do século XX, durante a Guerra Fria.

É interessante notar que as outras grandes potências abaixo da outrora superpotente EUA, como Rússia e China, se utilizam amplamente dos meios digitais como forma de ações não-guerreiras que qualifiquem-se como ataques aos EUA e ao mundo ocidental. Não distante, em 2007, uma estátua de soldado russo foi derrubada em Taillin, Estônia, ex-república soviética hoje aderente a OTAN, inimiga histórica da URSS.

O resultado foi uma catástrofe digital, com um massivo ataque cibernético dos movimentos nacionalistas jovens russos contra o ex-satélite, desligando todos os seus serviços, instituições e sistemas das suas redes digitais, isolando toda uma nação da internet - e de qualquer contato ou processo que dela dependesse - por 24hs. Não é novidade, portanto, que táticas como o uso da internet possam ser instrumentalizadas no terreno e nas tensões conflitivas entre os países.

A segurança digital, cada vez mais, é pauta e agenda para o século XXI. E a internet é cada vez mais um espaço social, mas também um espaço político e por que não, um espaço de conflito e tensão.



terça-feira, 29 de junho de 2010

O banzo


O Banzo, doença tida como inata em boa parte dos escravos que migravam da África ao Brasil, acomete a muitos viventes do Rio de Janeiro. Basicamente, uma depressão tida como congênita deixava os homens abaixo da produção, baixava sua auto-estima e conduzia até mesmo alguns ao suicídio, como boa parte dos registros constados na Academia Real de Ciências de Lisboa. Seria uma patologia de uma raça inferior, que serviria só para o trabalho e não mais que o trabalho braçal?

A saudade, antes de uma série de relações conflituosas de um suposto subconsciente coletivo de lutas de classe, ou a própria solidão, como registro de uma existência aparentemente menor em um ambiente densamente povoado – mas comunitariamente desagregado – solta os homens em meio a um ambiente que é duro e desigual. A migração pelo trabalho, movimento inequívoco por oportunidades e por melhores condições, é um duro translado da psique para o desconhecido, o inóspito e muitas vezes hostil.


Se o homem é político, antes de político é social; e nessa forja, todos nós caminhamos para um espaço menos solidário, mais duro e por vezes cruel. O banzo, doença de escravos, ainda é vivo no hoje, na realidade do migrante.


Pílulas de um falso domingo


Hoje é (era, já passa de meia-noite sendo, portanto, terça) segunda. Mas parece que é domingo. Vamos às pílulas:

Curioso que boa parte da ajuda ao Nordeste venha da Venezuela, não é? Parece que a Venezuela é mais amiga do nordeste que muitos estados da nossa federação... E depois falar mal da nossa política externa vira estratégia de eleição. #dungaburro ? Quem é burro?

-x-

Eu dormi durante o segundo tempo de Brasil e Chile. Mas não é por ranzinzice - até por que o time melhorou muito. E até o Dunga está mais simpático. Aliás, estou convencido de que adoramos reclamar dos nossos técnicos. O Brasil jogou um belo futebol hoje. Pena que o rival era um anti-climax que só. Ou seja, ganhar do Chile não tem mais graça. E bater em bêbado não tem graça.

Ok, não tem espaço pro #dungaburro

-x-

Ainda acho que contra a Holanda, deve voltar Felipe Melo. Acho arriscado demais um meio-campo aberto. Ainda que seja uma idéia divertida.

-x-

Volto com mais precisão amanhã. Semana passada foi muito corrida, várias sequelas.




segunda-feira, 21 de junho de 2010

Visões Periféricas 2010


domingo, 20 de junho de 2010

Nova ordem do mundo da bola


Ouvi um excelente e relevante comentário na TV hoje, assistindo ao pré-jogo da Copa entre Brasil e Costa do Marfim. A sempre enunciada chance de uma 'nova ordem mundial' foi novamente comentada e transposta para os termos do esporte, e na Copa de 2010, nós teríamos uma geografia do planeta bola recomposta após o fim do século XX.

Mas, pensando friamente, é ou não é um termo batido? O desejo por uma nova ordem, evidentemente, é visto a partir do sul, do Atlântico sul, onde tentamos estruturar novos eixos autônomos de relacionamento político, econômico e cultural com a África. A Europa e os EUA, antes vistos como paradigma evolutivo e civilizacional, agora já estão distantes em uma sucessão de crises que começou com a Queda do Muro de Berlim, passou dos fracassos consecutivos nas guerras do Oriente Médio ao 11 de Setembro, e as crises econômicas liberais do início de século.

O resultado disso é um mundo menos estruturado na convergência anterior sobre o Atlântico Norte, caminhando para outros pólos de poder menos concentrados. No entanto, não é possível que se diga assim, tão apressadamente, que as antigas estruturas e agentes estruturantes do mundo no século XX perderam a sua importância. Isso é afobação. Mas em compensação, as tradições já não valem nada. O que vale é a capacidade de converter e utilizar material humano, infra-estrutura, prestígio e união em torno de objetivos comuns, com foco disciplinar consciente e espírito cooperativo.

Quem viu Itália 1 x 1 Nova Zelândia, ou Sérvia 1 x 0 Alemanha, ou Dinamarca 2 x 1 Camarões, e ainda Suiça 1 x 0 Espanha, entre tantas outras zebras, pondera isso. O jogo da Argélia com a Inglaterra, esse então, é paradigmático: os jogadores argelinos nasceram, em sua maioria, na França, mas preferem jogar pela pátria de seus pais, migrantes do pós-2a Guerra que trabalharam na reconstrução dos países europeus ocidentais. É o refluxo de um século XX sombrio.

E a França, vejam a França, com tantos problemas de união, a mesma França que chama seus cidadãos de 'estrangeiros', é a síntese perfeita dessa decadência.

Isso, entre tantos outros fatores, é o que fará vitoriosos no esporte do século XXI, felizmente ou infelizmente. E vamos ao jogo. O Brasil entra em campo contra a Costa do Marfim.



sábado, 19 de junho de 2010

Copa, maquinário e espetáculo


Já passamos da primeira rodada, e todos estão falando mal de tudo, desde Dunga até a bola, passando por cada seleção. Os que falaram bem da Alemanha, queimaram a lingua; quem falou bem da Argentina, odeia o Maradona; há quem odeie (ou melhor, quem não odeia?) as vuvuzelas, cornetas-abelhas que são onipresentes na África do Sul. Em resumo, se computarmos tudo o que é dito, é a pior Copa do Mundo.

Concordando ou não, realmente tem jogos que não dá pra acreditar que é Copa do Mundo. Me lembro de Copas pavorosas. A dos EUA, em 94, não foi tão ruim quanto se esperava, mas ainda assim era de um anti-climax terrível na decisão por pênaltis em plena final. A da Itália, em 90, tinha nível técnico baixíssimo. Acho que a Copa de 2010 está sendo encarada com muito pessimismo; não acho que tem sido uma Copa sem emoção.

O primeiro jogo que vi da Copa foi Argentina e Nigéria. Não sei se era ansiedade das equipes pela estréia, ou por ter uma equipe bastante ingênua taticamente mas fisicamente incrível (a Nigéria), fiquei um pouco zonzo com o jogo. A expectativa positiva de um carioca, cuja característica do futebol é o toque de bola cadenciado, caiu por terra quando viu uma partida que praticamente não tinha jogadas de meio-de-campo: era bola voando pra lá e pra cá.

A tontura não foi a toa: a velocidade dessas partidas é assustadora. Não que os atletas sejam robôs, ou estejam dopados, não é nada disso. Nem sequer o argumento determinista que nos pressiona a crer que o futebol africano é afobado, físico e ingênuo.

Talvez o que me acometeu seja um futebol industrializado demais, com exagero na premissa de que o esporte é rendimento e é espetáculo. Milhões de câmeras, atletas fortíssimos, competitividade e horizontalidade no nível da competição. Essa é a Copa do Mundo do século XXI?

Talvez seja. E daí compreende-se a escolha de Dunga em não levar Neymar e Ganso, ou Ronaldinho. Não há espaço para o criativo em detrimento do maduro, do físico e, acima de tudo, do rendimento esportivo 100% confiável. Daí compreende-se Africa do Sul fora da Copa, Camarões fora da Copa, Argélia fora da Copa. O futebol africano, dividido entre a força física dos seus atletas nas tecnificadas ligas européias e a espontaneidade juvenil que ainda busca a superação do amadorismo, se vê defronte desse impasse. Impasse que na verdade é luta entre Davi e Golias no século XXI.



sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago, vivo.


A morte de José Saramago, hoje, é algo que deve ser profundamente recordado e registrado nos anais vivos da nossa civilização. Mais que um poeta, mais que um intelectual, Saramago é, e sempre será, um totem da língua portuguesa contemporânea, da sua riqueza e vastidão. Além disso, seu grande legado é o da capacidade de superar qualquer arcaísmo tido como inato no iberismo.

Sua vida se confunde com seus romances e com uma lírica versão ilustrada de política, cultura, crítica e razão.
Opositor de boa parte dos cânones da Igreja Católica, marxista, desesperado contra os bota-abaixos de qualquer tipo de tirania disfarçada e virulentamente tenaz contra os fascismos, em um mundo cada vez mais disposto a esconder suas desgraças. Destacada a sua obra até mesmo ao cinema, Saramago navegou por todos os meios de comunicação. Incontestável, mas ainda assim, aberto ao peito para a discordância.

Saramago deixará saudades. Bem, talvez ele não pensasse isso, crendo que cada um dá a sua contribuição, e daí ela vai por si ao mundo. E lamento, é bisonho que avacalhem Saramago por ele 'ir tarde pra encontrar com o capeta já que não acreditava em Deus'. Mundo doente. Saramago fará falta.



segunda-feira, 7 de junho de 2010

Eleições e truculência em uma política de má-vizinhança


Dias atrás, noticiava-se - em revista de grande circulação brasileira, além de outros jornais, blogs e redes sociais influentes - que o governo do Brasil financiara ao longo dos últimos anos o ‘cocainoduto’, ou ainda chamado de estrada transcocaleira, cuja construção facilitaria o acesso da folha de coca, matéria-prima da cocaína, às grandes cidades brasileiras. O engano sobre a Estrada Interoceânica, que ligará o Brasil ao Oceano Pacífico cortando Peru e Bolívia, foi notado até mesmo presidenciáveis de porte, bem representados pelo histórico partidário de vocação para tratados, acordos e comércio com países do Atlântico Norte.

Acusando que as políticas creditícias do governo Lula - operacionalizadas especialmente através do BNDES e do Proex/Banco do Brasil - para a construção de grandes obras de infra-estrutura no país vizinho seria uma atitude complacente e amistosa com a Bolívia, a questão da integração sul-americana (e a própria internacionalização dos investimentos brasileiros) caia definitivamente no debate eleitoral de 2010. Vésperas de eleições nacionais, ano de copa do mundo e recuperação de crise econômica.

A repercussão dessas matérias foi óbvia: parte da opinião pública articulada em torno dos então chamados ‘interesses nacionais’, já irritada com a nacionalização das refinarias da Petrobrás em 2006 e odiosa com relação ao governo de Evo Morales, aderiu e somou esforços contra a política externa brasileira. A questão nuclear iraniana e o apoio de Lula a Ahmadinejad, a tentativa de mediação brasileira no Oriente Médio e a íntima relação com governos nacionalistas de esquerda na América Latina – incluindo-se aí o apoio a Zelaya em 2009 – incrementaram a já difícil relação do governo brasileiro com mídia de massa, grupos de pressão pro-Israel e partidos de centro-direita.

O problema é que, definitivamente, os investimentos e oportunidades de crédito geradas pelo BNDES e pelo Banco do Brasil não são concessões cordiais para governos amigos. Trata-se de uma iniciativa pragmática de reconhecimento da necessidade de integração física e viária dos países sul-americanos para o fortalecimento do comércio intra-bloco regional. A estrada interoceânica, uma iniciativa no âmbito da IIRSA (Iniciativa de Integração da Infra-estrutura Regional Sul-americana, um processo multisetorial que pretende desenvolver e integrar as áreas de transporte, energia e telecomunicações da América do Sul, em dez anos), é fundamental para esse fortalecimento, mas também para que o Brasil possa ter uma melhor logística para se relacionar com a espacialidade comercial do Pacífico, ganhando uma nova franja de acesso ao mar.

Estimou-se, nos últimos anos, que são gerados no Brasil mais de 20 mil empregos para cada US$ 100 milhões contratados no país pelas empresas exportadoras de serviços de engenharia. Como as exportações geram, em média, 80% de contratações dentro do Brasil, o potencial gerador de empregos seja de aproximadamente 16.000 empregados brasileiros a cada US$ 100 milhões exportados. Tanto os recursos do BNDES quanto do Banco do Brasil são desembolsados no Brasil em reais e servem única e exclusivamente para remunerar mão-de-obra brasileira, equipamentos, materiais de construção e tecnologia. E esses montantes voltados para essa modalidade de exportação não entram em conflito com os recursos dedicados a infra-estrutura em território nacional.

Não compreender a órbita de real funcionamento, operação e importância destes investimentos resulta em incoerência com o desejo de internacionalizar a economia brasileira e saltar para fora da dimensão dependente do sistema capitalista internacional. Gera reserva de mercado para bens e serviços brasileiros ao fixar tecnologia brasileira no exterior, divisas para o Brasil, empregos indiretos e induzidos na cadeia produtiva, amplia as oportunidades para exportações de pequenas e médias empresas e faz com que os países cooperem para além da lógica das vantagens comparativas, como na década passada, quando o governo brasileiro de centro-direita antecedente ao governo lula comprava o gás boliviano a um quinto do valor de mercado – e considerava isso o melhor negócio do mundo, a despeito da sustentabilidade das relações bilaterais, hoje melhor instaladas.

Foi através dessa política externa brasileira cooperativa e estruturante de novos eixos comerciais e políticos em um mundo multipolar, francamente assumida pelo governo Lula, que o país ganhou destaque internacional, sediando mega-eventos e impulsionando a sua economia para além das relações com os países atualmente desenvolvidos. Foi através dessa política que nos mantivemos fora do ‘olho do furacão’ da crise financeira de 2008, e é na manutenção dos conceitos dela que o Brasil pode continuar crescendo.


domingo, 30 de maio de 2010

O que é o Socialismo do Século XXI?


Socialismo do século XXI? Mas o socialismo não havia morrido com a Guerra Fria (1945-1991) e o fim da URSS?

Do início: o termo "socialismo do século XXI" surgiu pela primeira vez no livro homônimo de Heinz Dieterich Steffan, em 1996. No momento, já estavam dispostas as condições para o que seria o princípio de uma 'onda' vermelha que varreria toda a América do Sul, cujo pontapé inicial foi a eleição de Hugo Chávez Frias na Venezuela, pouco tempo depois. É preciso dizer que, quase 10 anos depois do fim do socialismo real, surge uma alternativa para negar o 'fim da história' liberal, mercadológico e unidirecional de Francis Fukuyama e toda a intelligentzia da gestão Bush pai.

O socialismo do século XXI não é, portanto, uma reedição envernizada do socialismo real, apesar dos seus pés estarem fincados na racionalidade marxiana das relações de classe, hegemonia e negação do modelo capitalista, por exemplo. A sua ênfase está voltada para a atualização da prerrogativa do poder para as maiorias (e não mais a massa), que no socialismo do século XXI são alocadas na dinâmica social como o chamado 'poder popular'. Nessa instância residente de poder, garantir-se-ia um equilíbrio democrático na medida em que as decisões das instituições democrático-representativas vigentes (por sua vez mantidas, outra novidade) são equilibradas pela redivisão das potencialidades deliberativas do poder para as comunidades de bairro, movimentos sociais e demais espacialidades institucionais que estão para além das formas de organização 'clássicas' de decisão política. Trata-se, portanto, de gerar as condições de uma democracia participativa em termos reais, coexistindo com a república.


Na economia, o Estado estaria distante da perspectiva 'estatista', como muitos imaginam - e daí denominam, mais equivocadamente ainda, de 'populista'. As nacionalizações e demais medidas de controle da economia pelo Estado não estão voltadas para a negação total da economia de mercado. A noção de que o Estado não controla, mas regula, é essencial para se compreender o socialismo do século XXI; as próprias reformas políticas, que proporcionam essa dinâmica sociopolítica participativa, por sua vez são explicativas para uma nova economia popular. Para alimentar e sustentar uma lógica social mais participativa e descentralizada, o macroeconômico gera as condições para o desenvolvimento do mesoecônomico (departamento e municípios, por exemplo) e para o microeconômico (comunidades, cooperativas, conselhos regionais, etc). Com isso, se reestruturam as relações de valor - com menos ênfase na utilidade e maior consideração ao trabalho - e criam-se vias para uma distribuição mais equivalente e sustentável do capital.

As propostas, soluções e alternativas do que é o socialismo do século XXI estão abertas, dialeticamente, para novas interpretações. Não há definição fechada - apenas apontamentos, sugestões e debates. O socialismo ainda é uma alternativa em um século que acaba de começar.



sexta-feira, 28 de maio de 2010

terça-feira, 18 de maio de 2010

Mockus deve reaproximar Colômbia e Brasil, dizem analistas


JustificarMockus deve reaproximar Colômbia e Brasil, dizem analistas
18 de maio de 2010 • 13h42 • atualizado às 13h50 / terra.com.br
LUÍS EDUARDO GOMES

A Colômbia realiza no próximo dia 30 de maio eleições presidenciais que vão definir o substituto do atual governo de Álvaro Uribe. As últimas pesquisas de opinião divulgadas apontam para um empate técnico entre o candidato governista, Juan Manuel Santos, e o representante do Partido Verde, Antanas Mockus, o que exigirá a realização de um segundo turno. Especialistas ouvidos pelo Terra comentaram as eleições e projetam possíveis repercussões a partir dos dois prováveis cenários resultantes da eleição.

Marcelo Coutinho, professor de relações internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Daniel Santiago Chaves, pesquisador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente da UFRJ, acreditam que uma eventual vitória de Santos, ex-ministro da Defesa no governo Uribe, representaria a continuidade da política de linha dura contras as Forças Armadas Revolucionárias Colômbia (Farc) e o reforço da relação do país dos Estados Unidos, enquanto o sucesso de Mockus, ex-prefeito de Bogotá, poderia reaproximar a Colômbia dos demais países da América do Sul, consequentemente do Brasil, e aumentar a participação popular nas políticas públicas.

Santos X Mockus
Apesar de projeções iniciais terem indicado uma vitória fácil de Juan Manuel Santos, o pleito ganhou em disputa com o surgimento meteórico nas últimas semanas da candidatura do ex-prefeito de Bogotá Antanas Mockus, que chegou a aparecer como vitorioso ainda no primeiro turno em simulações.
Contudo, a recuperação de Santos nas últimas pesquisas voltou a deixar a disputa em aberto. "É difícil dizermos quem vai sair vencedor, as pesquisas não uma mínima segurança. A única segurança que temos é que vai haver segundo turno", diz Marcelo Coutinho.
Em relação ao segundo turno, o professor salienta que os votos destinados para Gustavo Preto, do Polo Democrático Alternativo, e para Noemí Sanín, do Partido Conservador, serão decisivos no segundo turno. "Se esperava que nessa eleição o Polo, que apareceu como força eleitoral nas eleições passadas, se apresentasse como uma alternativa. Mas ele atualmente disputa com o Partido Conservador o terceiro lugar", diz Coutinho, que projeta que os conservadores tendem a apoiar Santos, enquanto os seguidores do esquerdista Polo Democrático Alternativo devem migrar para a candidatura de Mockus.
Já Daniel Chaves analisa que algumas questões ainda precisam ser respondidas pelos candidatos para que haja a definição do vencedor. "Quem conseguir equacionar o problema das Farc, do social e de manutenção das taxas de crescimento, certamente vai sair vitorioso", diz.
Segundo ele, Santos não representaria exatamente uma continuidade do governo atual. "Uribe representa uma série de reformas no Estado colombiano. Ele tem uma plataforma de seguridad democrática que inclui a participação cidadã na Defesa colombiana. Já Santos tem a postura mais linha dura contra as Farc, ele não tem uma plataforma de governo contínua", diz o professor, que ainda traça um paralelo das eleições colombianas com o pleito presidencial brasileiro. "Ele não é a Dilma do Lula""
Em relação a Mockus, o professor Chaves questiona se as políticas dele são aplicáveis. "Eu acho mais difícil ele conseguir fazer virar realidade o crescimento econômico com essa plataforma verde", analisa Chaves. "Não é que as pessoas não sabem o que ele vai fazer, mas (há uma dúvida) se ele vai conseguir implementar", continua.
O professor Marcelo Coutinho, por sua vez, diminui a importância das diferenças econômicas entre os dois candidatos. "Não vejo muita diferença. Acho que é o processo de pacificação e de participação da população na política nacional (que será decisivo)", diz.
Daniel Chaves também acredita que Mockus se apresenta como alternativa aos partidos tradicionais colombianos. "Eu não entendo o Partido Verde do Mockus, como mais um partido que vai procurar se solidificar como um partido clássico na Colômbia. Não é um partido que gera as políticas, ele é um partido que ouve as políticas e tenta implementá-las; propõe uma sociedade mais participativa e menos parlamentar", conclui Chaves.

Combate às Farc
Um dos pontos mais importantes da campanha presidencial na Colômbia é combate às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que há mais de 40 anos colocam o país em estado de guerra civil. "A tendência do Santos é reforçar a linha dura contra as Farc. Ele é o cabeça da operação Fênix, no Equador", cita Daniel Chaves, lembrando a participação do então ministro da Defesa Santos na ação do exército que matou o líder guerrilheiro Raúl Reyes, em março de 2008. O incidente, realizado em solo equatoriano, alimentou as tensões entre a Colômbia e o país vizinho.
Em relação a Mockus, Chaves acredita que ele "não vai abrandar contra as Farc", mas procurar formas alternativas de enfraquecer a guerrilha. "Ele vai investir mais em uma plataforma de educação, de assistência social, de melhoria da qualidade de vida".
O professor Marcelo Coutinho concorda que Santos tende a reforçar a retórica de repressão violenta à guerrilha e que Mockus pode propor uma abordagem diferente à questão. "Com o Mockus, embora as questões fundamentais não mudem, existe uma certa flexibilidade. Se combinar essa flexibilidade com a participação dos atores sociais, isso pode repercutir. Pode mexer, inclusive, com as populações que vivem onde as Farc têm o controle. Embora não acabe com a participação do exército", diz Coutinho. "Muitas coisas foram tentadas, talvez essa possa vir a dar certo", complementa.

Relação com o Brasil
Os especialistas identificam dois cenários opostos no que diz respeito à relação da Colômbia com o Brasil dependendo de quem sair vencedor. "O Mockus é muito bom para o Brasil. Ele aprofunda o Mercosul, a Unasul, aprofunda as relações econômicas com o Brasil, enquanto o Santos é muito mais pró-americano. Porque a guerra contra as Farc também é uma guerra americana, não é uma guerra da Unasul", diz Daniel Chaves.
Já o professor Marcelo Coutinho, acredita que a relação entre os dois países também passa pela eleição presidencial brasileira. "Os dois candidatos estão mais próximos a José Serra e mais distantes da candidatura da Dilma, que tem maiores laços com o candidato do pólo alternativo", diz o professor. "As forças políticas na Colômbia são mais de centro. O próprio Mockus já declarou publicamente que tem mais simpatia com o Serra. O Santos estaria um pouco mais a direita", complementa.
Coutinho ainda afirma que uma eventual melhora na relação entre Brasil e Colômbia pode representar um marco político para a América Latina. "Os dois países formam um bloco de quase 250 milhões de habitantes, uma coisa impressionante. Fechando (uma aliança) os dois, é quase um bloco a parte. Se for bem sucedida, a aproximação seria uma grande inovação, o fato político mais importante da segunda década do século 20 na região.

Conflito com os vizinhos
Nos últimos anos do governo Uribe, aumentaram as diferenças entre o governo colombiano e os vizinhos Venezuela e Equador. Chaves e Coutinho concordam que uma possível eleição de Santos, um candidato mais ligado aos Estados Unidos, pode piorar ainda mais a relação entre os países. "Com a eleição de Santos, o confronto tende a se agravar. O Chávez já prometeu cortar relações e já anunciou o bloqueio comercial se o Santos for eleito. Atualmente, a Venezuela é um dos principais parceiros da Colômbia, mas o Chávez já tem um plano econômico em que a Argentina será o substituto comercial. A mesma coisa o Equador", diz o professor Daniel Chaves. "O próprio operativo que matou o Reyes em território equatoriano deixa claro o tom do Equador em caso de vitória do Santos", complementa.
"Ambos (Chávez e Correa) fazem campanha para a vitória de Mockus", comenta Marcelo Coutinho. "Mockus, inclusive, afirmou que admira o Chávez durante a campanha e depois voltou atrás dizendo que o respeita", adiciona, lembrando que uma declaração de apoio aberto ao venezuelano pode ter repercussão negativa no país.
Para Coutinho, a eleição de Mockus seria benéfica para a unidade da América do Sul. "Mockus mudaria a página e abriria uma nova a ser escrita na relação desses países", conclui o professor.
Contudo, o professor Daniel Chaves afirma que Mockus não se aproxima politicamente de Chávez. "Eu tenho impressão que o Mockus representa uma possibilidade de mudança na América do Sul, justamente por ele se colocar distante da retórica conflitiva, comum em todos os países da América do Sul", diz Chaves.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Versinhos curtos


A que nunca apareceu / Quando apareceu, se escondeu / Foi como uma nuvem / Que se vê em tantas outras / E me perco em ver como poucas / Já que quase não reparo nas nuvens / Mas às vezes me pego tonto olhando para o céu / E vejo uma nuvem / Fechada, sem ver o que há no meio / É como se eu ficasse tonto / E como se a nuvem, que eu não posso tocar / Continuasse ali, fechada

Um dia eu consigo entrar em um avião.

-x-

Que alívio, amiga
Pois o que parecia fim programado
Virou mais do que nunca
O que sempre foi, diferente e mais forte

E que bom
Que amanhã é um novo dia
Para novos recomeços, para novos nós
Pro que o impossível me trouxer


sexta-feira, 7 de maio de 2010

Sem sorte


Sem sorte não durmo / nem espero pelo sono / ora, se o que me faz falta é o brilho da vida
Escrevo, por certo, versos sem sorte / que não tem porte / nem rima ou métrica (pra que impedir as entranhas?) / nem nada que faça um poema feliz / e uma poesia feliz
Não minto, nem posso / seria algo sem sorte / por que a certeza do gesto / é o arriscar do pescoço

E sorte, minha amiga / é preciso tirar pra ter.

Nos dois gumes do que esse voto vai te dar / o do ridículo / e o do honesto / eu me rogo franco / e desembesto / sem saber o que vai ser de mim / nem da vida / e sei lá de você
O que guardo, amiga / é o retrato colorido e mágico / de dois dias feito bola / rolando, maliciosa / uma daquelas várias que enchem os momentos de magia, de alegria, na roça ou na televisão / algo que poderia ser tão banal

Não quero estar por perto / nem quero estar tão longe / nem quero causar calor na hora / nem grudar feito chiclete / eu só queria mais sorte, minha tão amada amiga / a qual eu confesso / que melancolia e mau-amor, não é pra mim.

guarde esse protocolo, esse canhoto estranho e indevido do imenso espaço teu no meu coração.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Wild Wood


High tide, mid afternoon
People fly by, in the traffics boom
Knowing, just where you are blowing
Getting to where you should be going

Dont let them get you down
Making you feel quilty about
golden rain, will bring you riches
All the good things you deserve and now

Climbing, forever trying
Find your way out of the wild, wild wood
Now theres no justice
Only yourself that you can trust in

And I said high tide, mid afternoon
People fly by, in the traffics boom
Knowing, just where you are blowing
Getting to where you should be going

Day by day your world fades away
Waiting to feel all the dreams that say
Golden rain will bring you riches
All the good things you deserve now

And I say, climbing, foreever trying
find you way out of the wild, wild wood
Said you are gonna find you way out of the wild, wild wood
Wild wild wood

quinta-feira, 29 de abril de 2010

De todas as direções


Sinto tanta saudade, mesmo debaixo dos sentimentos e das partidas
Já que traz-se de dentro o estalo de já saber das feridas
E de fora, aqui de fora ou lá de fora, tenho medo da palma da mão dessa saudade vindo feito chumbo
Tão contraditório / Por que ao mesmo tempo, vem como se por cima viesse uma luz

E eu não sei o que te digo, ou o que faço
Ou o que vejo, já que não sou de aço
Em rimas cada vez mais certas, menos imprecisas, gesto preciso
De quem se sabe e entende melhor o que tanto seduz

Mas um soneto, só um soneto
Ora, não explica nada, não convence ninguém, nem convém que assim seja
Pois é pra ser música, delírio, confissão e desejo

É só um gesto que preciso, apesar da vida ser tão imprecisa no seu repetido gesto
Me assento e desejo, intensamente, a esperança de que a tua vinda seja, daqui por diante, várias
Seja feita assim, como se fosse a alegria diária

terça-feira, 27 de abril de 2010

EPP x governo, no Paraguai



Essa semana começou com algumas notícias rigorosamente inesperadas na América do Sul.

Ninguém preveria que no Paraguai surgiria a ameaça de uma guerrilha de esquerda (?!), dita marxista-leninista e que subitamente teria apoio das FARC para as suas operações. A EPP, em um piscar de olhos, sacudiu o país, instaurou o famoso estado de exceção em 7 departamentos do país e fraturou ainda mais a confusa coalizão governista, colocando o presidente e o seu vice em rota de colizão.

O país vizinho realmente não precisava dessa, já que passa por restruturação econômica e política após uma longa (e obtusa) era Stroessner, uma ditadura de extrema inclinação a presença (leia-se predominância) dos interesses das grandes potências no país. Um Cipayo, na gíria hispanófona. Mas ok, o que nos interessa nessa mais nova crise sul-americana?

- É incontornável que, em qualquer intempérie política paraguaia, os brasiguaios (brasileiros que tem família paraguaia ou que tem propriedade e residência por lá) são alvo certo e notório para agressões e roubos. Pouca gente ainda duvida que os grandes proprietários brasileiros são persona non grata de qualquer movimento social ou guerrilha reformista/revolucionária, até por que esses proprietários são donos da mesmíssima terra a qual os insurgentes desejam obter através de reforma agrária.

- Boa parte dos departamentos onde o estado de exceção foi instaurado faz fronteira com o Brasil, e nesse sentido é bastante palatável crer que em uma explosão do conflito, haverá transborde para os nossos estados, seja como refúgio, seja como base operacional e financiadora, seja como simples área de manobra.

- Há encontro marcado nas próximas semanas entre Lula e Lugo, presidentes do Brasil e Paraguai. É de bom grado apoiar o governo paraguaio para arejar as relações bilaterais, em mão-dupla: não é interessante ter conflito na nossa borda, e é muito menos interessante que Lugo, atual defensor da negociação e da garantia da Lei e da Ordem, perca a queda-de-braço com os seus adversários políticos, notoriamente advogados da repressão a manu militari.

Ver o bicho pegar é bom para o Brasil e para a América do Sul?

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Não entendo mais nada sobre o que se passa na Colômbia. Toda vez que eu, muito curioso, perguntava aos granadinos sobre o seu alcaide de Bogotá, o 'doidão' Antanas Mockus, me diziam que ele não tinha a menor chance de ser presidente, a despeito do belo trabalho que fez na capital colombiana.

Agora ele está tecnicamente empatado com o primeiro lugar, que é sucessor-apadrinhado de Alvaro Uribe? Amanhã tento destrinchar essa.



segunda-feira, 12 de abril de 2010

Os dentes nascerão?



Finalmente Niterói se conscientizou do câncer que é o Jorge Roberto Silveira. Não que ele tenha sido todo mau ao longo dos seus mais de 20 anos de permanência na política de Niterói. Nem que ele tenha comprado ou coagido os milhares de votos que recebeu nas suas eleições. Fomos nós, niteroienses, como sociedade, que apoiamos a sua permanência.

Jorge Roberto não é tão poderoso assim. Ele não é o líder de um processo miraculoso, mas o resultado de uma apatia que se abateu na cidade ao longo das 2 décadas seguintes ao fim do período em que a cidade foi capital do estado do Rio de Janeiro, coincidindo com a desindustrialização de zonas periféricas das grandes metrópoles que não entenderam a wave do desenvolvimento da era informacional (Rio de Janeiro, Recife, e por aí vai).

O problema é que nem todo mundo percebeu que o Jorge do 1º mandato não existe mais há pelo menos 10 anos. E agora, percebeu do pior jeito possível. Niterói é uma cidade inviável, sem infra-estrutura e serviços, sem cultura e sem lazer, sem emprego e sem desenvolvimento. Vive de royalties, pequeno comércio e IPTU. Que a minha cidade natal seja salva pelas próximas gerações políticas.




terça-feira, 6 de abril de 2010

Niterói, cidade banguela


Niterói, outrora capital do estado do Rio de Janeiro, agora é uma enorme poça d'água. As chuvas dos primeiros dias de abril de 2010 revelaram a fragilidade do péssimo sistema de saneamento básico, de segurança civil e do sistema habitacional. Metade dos quase 100 mortos (contados ainda sob as águas) é daqui, da velha capital do estado que já foi um dia.


Ressentida dos anos em que era a estrela fluminense, hoje, uma pálida cidade dormitório, a cidade está a mercê de um sentimento generalizado que tomou conta dos seus trabalhadores. Sim, Niterói é uma cidade de trabalhadores; mesmo os especuladores, grupo que se espalhou pelas últimas duas décadas na terra de Araribóia, não são propriamente burgueses, ao contrário do que pensam. Não há, em Niterói, uma classe verdadeiramente empreendedora, capaz de industrializar, instituir comércio, desenvolver ou implementar inovações tecnológicas elaboradas na verdadeira capital, a Guanabara.
Niterói tem medo disso. Talvez por timidez, talvez por preguiça, mas certamente por inibição: sem indústrias, sem infra-estrutura, entregue a uma classe especuladora e ociosa, Niterói vive de IPTU, de vampirismo imobiliário insandecida e de pequeno comércio. Não que isso seja um problema: nada contra a arrecadação, nada contra o empreendedorismo e nada contra atividades economicas de baixa intensidade. O problema é que só isso faz com que a cidade sorriso seja uma cidade banguela.
Se a cidade vai acordar e perceber que se atrasa no medo do cosmopolitismo, do desenvolvimento e dos motores de uma verdadeira composição metropolitana, não é possível saber. O que é possível saber é que do jeito que vai, não demora a se tornar inviável. Culpa dos mais de 50 mortos? Ninguém pediu pra morar em encosta. A responsabilidade é dos que pensam que moram na melhor cidade do mundo, e eleitos por Deus, pelo povo ou por alguém, seguem sentados no troninho seguem.
É só assoviar, que na próxima eleição ele volta. Não foi assim em 2008?

África do Sul + Crise ambiental



Raça? Hoje, faleceu Eugène Ney Terre'Blanche, um líder racialista e defensor da clivagem entre os brancos bôeres (afrikaneers) e os negros na África do Sul pós-Apartheid. O Volkstaat, Estado do povo, seria dos brancos, fazendo valer o princípio dos Boer Republics do fim do século XIX.

Apesar da questão racial em torno do seu partido, o nacionalista de direita Afrikaner Weerstandsbeweging, que já fez uso de milícias e de signos fascistas para defender os interesses pecuaristas, a morte de Terre'Blanche não envolve só a sua ideologia sobre a cor; envolve também uma certa radicalidade, uma tensão desvelada na África do Sul que vê investimentos, vê Copa do Mundo, mas não vê justiça social.

A continuidade da cansada idéia de que determinadas matrizes civilizacionais são 'iluminadas' ou são 'escolhidas' para o caminhar de um povo também esteve presente no nacionalismo afrikaneer durante décadas, e nem sempre a resposta a isso é tolerante - nem é justificável, também. O tempo faz justiça contra o colonialismo, nem que seja às vezes na marra.

Terre'Blanche, infelizmente, foi parte das duas faces do excremento imperialista: o divisionismo e a ceifagem certa.

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Crise Ambiental. Hoje experimentamos, no Rio de Janeiro, os pés molhados pelo problema das chuvas devastadoras de fim de Verão, que por sinal castigaram a virada 2009/2010 no Sudeste.

Mas sinceramente, não lembrei do Al Gore nem dos pingüins morrendo na Antártida. O que me veio a cabeça imediatamente é que a minha cidade, como tantas outras partes integrantes de metrópoles, é inviável: impermeabilizada pelo concreto, sem infra-estrutura viária e sem o mínimo de lucidez para entender que os espaços são finitos. Agrupar pessoas (e seus carros e seus lixos) aos montes em cidades sem escoamento alternativo - ou até mesmo básico - é inconsequente.

Não sei se chove mais hoje em dia que há 100 anos atrás, mas sei que agora todos os espaços estão entulhados, atolados e vedados. Há mais lixo, mais gente, mais veículos, crescendo em progressão muito maior que os sistemas de saneamento, as vias públicas e afins. Enquanto não houver a consciência de que é preciso 'esverdear' a economia e que não é possível persistir no déficit de serviços e infra-estrutura, tudo vai parecer cada vez pior.